As cidades brasileiras cresceram e foram se desenvolvendo sem planejamento, com poucas exceções. Mesmo as áreas urbanas frutos de intervenções planejadas são hoje objeto de olhares críticos.
A regra foi, infelizmente, uma expansão bastante desordenada, pautada por ocupações privadas de alta e de baixa renda seguidas pela pressão para a instalação de infraestrutura e de serviços públicos.
Como resultado desta trajetória, as cidades herdaram espaços cheios de problemas e de difícil gestão.
Na paisagem urbana e na vida das cidades, a água é o elemento que mais ferozmente sofreu degradação, com consequências amargas e de custosa reversão.
A listagem de danos causados pela ocupação desordenada é longa e chocante. Rios foram canalizados e tornados invisíveis.
Áreas lindeiras foram ocupadas até suas margens, consideradas nos níveis de seca mais intensa. Ignorou-se que, na estação das chuvas, o espaço necessário para o escoamento das águas é bem maior.
Perdeu-se a oportunidade de ter os rios como aliados das cidades, de usá-los para navegação e como locais de lazer que amenizam a paisagem e dão qualidade à vida urbana.
Reverter este quadro pressupõe a reorientação de algumas das concepções que nortearam o desenvolvimento das cidades. Requer o planejamento com outra visão, novos e pesados investimentos, participação social intensa, cuidados permanentes.
Com o olhar para a qualidade das águas e para a gestão das enchentes é preciso investir em vários setores da vida urbana: retirar infraestrutura inadequadamente implantada, oferecer novas habitações, com prioridade para moradores de áreas de risco, garantir coleta de lixo e varrição sistemática das ruas, fiscalização intensa sobre o destino do entulho e sobre os focos de erosão, reurbanização de áreas degradadas e implantação de novos sistemas de drenagem, completar as redes de coleta de esgotos e levá-los para estações de tratamento.
A lista é muito longa e as atividades, bastante complexas. Por isso, precisam figurar como prioridade de governo.
Existem bons exemplos, como o de Seul, na Coreia do Sul, que recuperou totalmente o rio Cheong Gye Cheon em apenas três anos.
Canalizado sob uma grande avenida com quatro faixas para veículos, o rio era completamente invisível até que a cidade tomou a decisão de trazê-lo de volta à tona.
Cinco quilômetros de avenida foram demolidos e o resultado pode ser medido pela melhoria urbana no entorno e pela beleza da paisagem que os moradores conseguiram recuperar.
O rio Tâmisa, em Londres, é outro caso exemplar. Centenas de anos de poluição intensa foram enfrentados com investimentos maciços na rede de esgoto. Tido como morto até os anos 1950, o Tâmisa voltou a ser navegável e abriga, hoje, 120 espécies de peixes. Existem outros bons exemplos, inclusive aqui no Brasil.
Isoladamente, as prefeituras não conseguem resultados suficientes.
É preciso a sua articulação com o Estado e com o governo federal, assim como é preciso estabelecer políticas comuns entre os municípios que compartilham bacias hidrográficas.
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Andrea Matarazzo é secretário de Estado da Cultura de São Paulo
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