A importância que a China vem adquirindo no cenário internacional e o crescimento substantivo do peso de nossos laços com os chineses tornam imprescindíveis para o nosso futuro repensar nossas relações com a China.
Enquanto a crise mantém a Europa sob tensão, inclusive com rebaixamento da nota de risco de oito nações e do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, e crescem os temores de uma contaminação de outros centros, não há no horizonte pessimismo no que diz respeito à China.
Estima-se crescimento de 8% em 2012, distante de uma desaceleração brusca no ritmo de expansão chinês que afetaria a economia mundial.
Em 2005, a corrente de comércio Brasil-China era de cerca de R$ 12 bilhões. Desde então, a trajetória é ascendente, chegando a R$ 56,3 bilhões em 2010.
O ano passado marcou mais um avanço: foram R$ 44,3 bilhões em exportações e R$ 32,7 bilhões em importações, totalizando uma corrente de comércio de R$ 77 bilhões. Nosso saldo comercial com os chineses mais que dobrou: foi de R$ 5,1 bilhões em 2010 para R$ 11,5 bilhões em 2011.
De fato, a China virou o principal destino de nossas exportações - cerca de 15% do total - e o segundo país de origem das importações, atrás dos Estados Unidos - com 14% do total.
Temos ampliado a presença chinesa em nossa pauta comercial sob todos os aspectos. Isso fica claro quando se vê que nossas exportações de industrializados para a China totalizaram R$ 6,6 bilhões no ano passado, ante os R$ 5 bilhões de 2010, o que se repete com os itens de exportação básicos, que foram de R$ 25,7 bilhões em 2010 para R$ 37,6 bilhões em 2011.
Mas o detalhamento da pauta preocupa: mais de 80% do que exportamos são de itens básicos, enquanto que mais de 95% do que importamos da China são de manufaturados (destaque para componentes tecnológicos).
Além disso, a China tem avançado sobre a América do Sul, com foco em energia e produção de alimentos. No Brasil, os investimentos vão para agroindústria, mineração, petróleo e gás.
Segundo o Ipea, os investimentos diretos chineses no Brasil saltaram 294% do período 2001-2005 para o 2006-2010 - em 2012, a previsão é de US$ 25 bilhões.
A China caminha para ser o primeiro exportador em serviços e tecnologia e a maior potência econômica e militar global, ocupando os espaços de modo a se contrapor e a equilibrar o poder imperial e militar dos EUA.
Projeta-se significativamente a partir de seu poderio tecnológico, corrida na qual o Brasil chegou atrasado e, por isso, precisa avançar a passos largos.
Essa condição singular da China exige que estruturemos um projeto de desenvolvimento que priorize nosso lugar no mundo, combinando a defesa de nossa soberania com a valorização das relações com a China, o que passa por proteger a produção nacional sem prejudicar a corrente comercial e atrair investimentos para o setor de tecnologia, por exemplo.
E só há uma forma de estruturar tais políticas: associando a defesa comercial, o acesso às tecnologias, aos mercados e aos capitais às estratégias de desenvolvimento econômico, diplomático e militar que equacionem os interesses brasileiros, chineses e os comuns.
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José Dirceu é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT
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Nosso comércio com a China, como foi no passado quando colônia "oficial ou não" de outras nações, é tradicionalmente exportandor de matérias-primas e importandor de produtos idustrializados. Isso não é tão bom, mas também não é de todo ruim, veja o caso do Canadá. Minha preocupação é quando o "colonizador" entra e ele mesmo vai explorar ou produzir as "commodities" que necessita. O lucro dessas atividades será dele e ainda necessitaríamos comprar os seus bens manufaturados. Mas como? Com que dinheiro? Já que passaríamos a ser apenas um fornecedor local de mão-de-obra menos qualificada. Acho que as políticas governamentais não devem ir de encontro ao interesse desse parceiro (China), mas devem achar um ponto de equilíbrio, fomentando fortemente a pesquisa e a indústria nacional, para que esta última não sucumba ou acabe sendo vendida para os chineses.