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Análise

"Corte de nota eleva custos de financiamento da França"

Felipe Peroni   (fperoni@brasileconomico.com.br)
13/01/12 19:07


"Acredito que a crise vá durar entre seis e sete anos, com baixo crescimento e recessões"

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O corte da nota da França e de outros países da Europa dificulta o financiamento, mas não é uma catástrofe, diz professor. Por sua vez, o euro deve continuar em queda.

O aguardado corte da nota de crédito da França deve elevar a pressão sobre a dívida dos países europeus. 

Para o francês Didier Cossin, professor de Finanças da escola suíça de negócios IMD, a avaliação continua em um patamar alto. Ele acredita que o euro não vai desaparecer, mas será reestruturado, e vê a moeda caindo abaixo de US$ 1,00.

Além disso, tem certeza de que a Grécia deixará a Zona do Euro, junto com todos os países que não puderem suportar um ajuste fiscal.

Para o economista, a crise torna urgentes reformas profundas na França. "Não se trata de apenas cortar gastos", diz.

Hoje a Standard & Poor's deve oficializar o corte da avaliação "AAA" da França. Quais as consequências imediatas para o país e para o resto da região?

Claro que esse corte tornará mais difícil o financiamento dos países. Ao mesmo tempo, mesmo após o corte, as notas da Europa vão ficar em um nível alto.

A questão é o que vai acontecer com a Alemanha, e até que ponto podemos contar com a Alemanha como âncora, já que está com uma economia sólida e se saindo bem na crise.

Na França, esse corte era esperado, e não é tão forte. Teremos um aumento bastante perceptível no custo de financiamento, mas não é tão sério a ponto de que o país não possa aguentar.

O mercado já não estava tratando a França como se possuísse um rating ainda mais baixo?

Acho que a França não vai ficar abaixo de grau de investimento no médio prazo. Mas os agentes de mercado tendem a ser mais pessimistas que as agências de rating.

A respeito da França, o passivo do país não está totalmente mensurado, e isso é o que assusta o mercado. Com as eleições próximas, não teremos total transparência sobre essas obrigações.

A atual dívida da França não é grande demais para a economia. Mas exige uma reestruturação, e o receio é que o país não tenha um consenso para realizar as reformas requeridas. Não se trata de apenas cortar gastos.

Devemos pensar como a França pode ser mais competitiva mundialmente, da mesma forma que a Alemanha vem fazendo.

Indicadores mostram que a Europa já está em uma recessão. Sua duração será longa ou será uma pequena contração?

Posso dizer que a crise, sim, será longa. Não sei dizer se a atual recessão técnica vai ser longa, mas a crise vai durar anos.

É uma situação que requer uma reestruturação em muitas áreas, mudanças em governança. Acredito que deve durar de seis a sete anos com baixo crescimento ou até recessões.

Espero que os governos tomem as decisões certas, e poderemos ser a região mais competitiva do mundo. Nesse sentido, a crise do euro pode trazer uma vantagem. O euro está muito valorizado, e a queda pode reequilibrar a competitividade por aqui.

Então a queda do euro pode ser positiva? Há um piso para essa desvalorização?

Existe um lado positivo no curto prazo, e um negativo no longo prazo. Imediatamente, a queda impulsiona as exportações. Isso não trará nenhuma vantagem para a Grécia, que quase não exporta, mas será bom para a Alemanha.

Em um certo sentido, isso aumenta a diferença entre os países.

Além disso, a queda do euro derruba o valor de ativos na região. Um alto valor de ativos facilita aquisições, por exemplo. O ideal seria ter uma moeda forte, e uma economia competitiva. Mas no curto prazo, a queda da moeda ajuda.

Não há um piso para o euro agora. Não vejo razão para que o euro esteja mais alto do que um dólar. Acredito que ele possa cair até US$ 0,80, por exemplo.

Você diz esperar que os governos tomem as decisões certas. Qual o caminho certo para os países?

Em minha opinião, o caminho pelo qual a Alemanha está indo é o mais certo, com disciplina fiscal e corte de gastos. Não acredito que apenas aportes de dinheiro resolvam, é uma questão estrutural.

O problema é se os países terão disciplina para isso. As autoridades foram fracas e despreparadas, então não sei se os ajustes são implementáveis, mesmo com a pressão da Alemanha.

Mas essas medidas não podem aprofundar a recessão?

No curto prazo, sim, mas acho que são a saída certa, porque a Europa deve aumentar sua competitividade internacional. A alternativa seria apostar em um mercado protetor, e confiar no consumo interno, mas isso funciona melhor com emergentes.

A Europa é uma região economicamente forte e tem como aguentar uma contração no curto prazo. Mas países como a Grécia não aguentarão, e por isso acredito que eles vão deixar a Zona do Euro.

Você vê a Grécia saindo do euro?

Sim. Faço consultoria preparando empresas para um cenário de quebra, incluindo a Grécia deixando o euro. Mas também é provável que ocorra uma saída de Irlanda e Portugal.

Em alguns países deverá ocorrer um choque muito forte, e será complexo para ativos denominados em euro.


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