Imagine qual teria sido a reação do governo brasileiro se, em 2007, o México tivesse contestado o acordo automotivo entre os dois países com base nas trocas que, naquele momento, lhe eram desfavoráveis.
Só para lembrar, o Brasil exportou naquele ano mais de US$ 1 bilhão em automóveis para o México e importou alguma coisa em torno de US$ 550 milhões.
Por trás desse saldo espetacular estavam as condições de câmbio - porque, em termos de competitividade, as indústrias dos dois países eram equivalentes.
Pois bem: se os números daquela época tivessem inspirado o México a discutir e ameaçar romper o acordo, como faz agora o Brasil, não faltaria por aqui quem acusasse o parceiro de agir em nome dos interesses de seu vizinho mais poderoso, os Estados Unidos.
Agora, com o real mais valorizado, a situação é muito mais favorável para o México do que era para o Brasil naquele momento. No ano passado, o Brasil exportou US$ 512 milhões para o México, enquanto as importações superaram os US$ 2 bilhões.
Como se vê, o quadro é muito desconfortável. Só que, ao invés de agir como a Argentina, que tenta salvar o que restou de sua indústria impedindo a entrada de produtos importados em seu território, o Brasil deveria parar e pensar nas causas do saldo desfavorável e buscar uma solução mais madura para o problema.
O argumento do Brasil é o de que, ao manter a porta aberta para o México, o Brasil estaria apenas criando uma escala a mais para os produtos que tentou conter no ano passado, quando aumentou o IPI dos carros importados. Por esse raciocínio, os carros vendidos ao Brasil são apenas montados nas "maquiadoras" mexicanas, com mais de 80% de peças importadas da Ásia, da Europa e mesmo dos Estados Unidos.
Assim sendo, o México seria a porta de entrada para os carros chineses que o governo pretendeu segurar fora do país com as medidas do ano passado. Mais do que essa questão pontual (que não deixa de ter grande relevância), existe uma questão de fundo, que precisa ser debatida: a da competitividade da indústria brasileira.
O problema que ocorre com as montadoras brasileiras é o mesmo que acontece com outros segmentos que, por falta de investimentos e excesso de impostos, tornaram-se presas fáceis para produtos importados.
No ano passado, com o dólar na casa de R$ 1,50, até mesmo a super-competitiva indústria de alimentos esteve a ponto de perder espaço para produtos estrangeiros.
Para os próximos anos, a entrada de moeda estrangeira deve continuar acelerada - o que significa, no final das contas, que o real continuará valorizado. Se a resposta a essa realidade for o fechamento de nossas fronteiras, logo os investidores se darão conta de que o Brasil não é um porto tão seguro quanto se imagina.
A comparação com a Argentina é suficiente para escancarar os riscos de uma política industrial voltada para os interesses imediatos. A ausência de uma política industrial integrada e voltada para o futuro faz com que o Brasil perca inclusive as vantagens que já conquistou.
Seria muito pouco provável, para citar apenas um exemplo, que os carros estrangeiros levassem tanta vantagem sobre os nacionais se o preço do etanol proporcionasse aos consumidores a mesma noção de vantagem de tempos atrás. A discussão é longa e promete novos capítulos.
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Ricardo Galuppo é Publisher do Brasil Econômico
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