Por todos os critérios, o Brasil vai bem no rescaldo da crise. Ainda que se discuta a qualidade de nosso ajuste fiscal desde 1999, temos contas públicas de fazer inveja e estamos a anos-luz das agruras dos PIGS ou de outros membros do G-20. Com uma expectativa de crescimento próxima de 6% para 2010, o que teríamos a temer?
A inflação incomoda, mas ainda não assusta, a crer no resultado da última reunião do Comitê de Política Monetária, que manteve inalterada a taxa Selic. E as contas externas?
Depois de anos de gordos superávits na Balança Comercial, vislumbra-se a possibilidade de incorrermos em déficit já em 2010. E para o conjunto da conta de Transações Correntes, os analistas esperam um resultado negativo entre 2,5 e 3% do PIB, algo entre US$ 50 e US$ 70 bilhões.
Nada demais, afinal. Nossa dívida externa de aproximados 10% do PIB é menor do que nossas reservas, próximas de 13%. A maior parte do nosso passivo externo líquido - o conjunto das nossas obrigações externas - se refere a investimentos diretos e a aplicações estrangeiras em bolsa, que tendem a permanecer ou mesmo a aumentar caso não se cometam barbeiragens de política econômica que ponham em risco nossas perspectivas de longo prazo e nosso risco soberano.
Além disso, o câmbio flutuante permite o reequilíbrio mais suave de eventuais guinadas nas contas externas. Não obstante tudo isso e as semelhanças com a bem sucedida "via australiana" de crescimento com polpudos déficits em Transações Correntes, há o que temer!
O senso-comum do debate sobre as nossas contas externas é toscamente mercantilista e só vê problemas nas importações e nos déficits comerciais ou em transações correntes.
O fato de nossas crescentes importações estarem sistematicamente associadas ao maior nível do investimento interno e do déficit em conta corrente ser expressão da poupança externa que ajuda a viabilizar investimentos além das nossas possibilidades é quase sempre esquecido.
Assim, e em especial pelos apelos de um ano eleitoral, crescerão os clamores por alguma mágica cambial que recupere a competitividade-preço de nossas exportações, em especial de manufaturados.
As opções para valer seriam reduzir o custo real da mão-de-obra ou aumentar a produtividade local: a primeira, politicamente inviável, ainda que pela rota tortuosa da maior inflação; a segunda, reiteradamente descartada por um governo sem vezo reformista ou eficiência no trato da qualificação de nossa mão-de-obra ou da melhoria de nossa infraestrutura.
Não bastasse isso, pesquisa recente de Kenneth Rogoff sobre a trajetória cambial de grandes exportadores de commodities (referida em entrevista disponível no Blog de Fernando Dantas, no Estadão) indica que o aumento de 1% em seus preços tende a produzir valorização do câmbio real de 0,5 a 0,6%.
Como China e Índia continuam crescendo e o Brasil é forte em commodities, tendemos - e não apenas por isso - a mais valorização cambial e a uma pressão renovada por soluções de fancaria. É esperar para ver.
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William Ricardo de Sá é professor associado da UFMG
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