"Foi um parágrafo forte e ninguém esperaria uma posição tão explícita do BC", diz Luís Otávio Leal
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Juros futuros têm forte queda após a divulgação da ata; economistas passam a apostar em uma taxa a 9,5% a partir de abril.
Após a divulgação da ata de reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), economistas e analistas de mercado dedicam-se a fazer a "tradução" do comunicado, buscando nas entrelinhas do documento afirmações que possam sinalizar quais os próximos rumos da política monetária.
Em contrapartida, os comunicados do Banco Central (BC) capricham em jargões técnicos e alternam entre descrever a avaliação oficial do cenário econômico e introduzir mudanças em relação aos comunicados anteriores que retratem mudanças na visão da entidade.
Na ata da última reunião do Copom, divulgada nesta manhã, a principal surpresa veio em um parágrafo, em que o Comitê afirma ser alta a possibilidade de que os juros fiquem abaixo de um dígito ainda este ano.
"Foi um parágrafo forte e ninguém esperaria uma posição tão explícita do BC com relação a reduzir os juros até um dígito", diz Luís Otavio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil.
"O Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares de um dígito", diz o parágrafo 35 do documento.
A declaração é amplificada pelo fato de que a autoridade monetária está em pleno processo de redução nos juros. Desde agosto, nas últimas quatro reuniões de decisão de juros, a taxa Selic foi rebaixada em 0,5 ponto percentual cada uma, passando de 12,5% em agosto para 10,5% neste mês.
"Foi um passo bem ousado em deixar claro o rumo da política de juros", diz Leal.
A dúvida dos analistas era até onde iria esse ciclo de corte nos juros. Alguns apostavam em 10%, outros já projetavam uma queda até 9,5%.
"A ata da Copom desfez a percepção extraída do Relatório de Inflação de que o ciclo de baixa poderia terminar em 10%", diz relatório da Bradesco Corretora, elaborado por Octavio de Barros.
A corretora acredita que para o BC, o teto para os juros fica em 9,75%, e projeta uma Selic de 9,5% em maio.
Para a consultoria LCA, a ata elimina as dúvidas de que serão realizados mais dois cortes de 0,5 ponto, levando a taxa a 9,5% em abril.
"Eu estava prevendo juros até 10%, agora acho que vai pra 9,5%", diz Leal.
Com os mercados financeiros em alta no início do ano, sinais de uma retomada consistente nos Estados Unidos, e até alguma esperança de solução para a crise na Europa, alguns analistas consideravam que o BC iria rever a alta nos juros.
"Acredito que essa melhora no cenário externo está sendo menosprezada pelo BC. Não digo que esteja certo ou errado, mas está começando a correr risco", diz Alfredo Barbutti, economista da corretora BGC Liquidez.
O mercado de juros futuros já começa a assimilar a ata, apostando com mais certeza em juros de um dígito. Os contratos de depósito interfinanceiro de um dia (DI de um dia) têm forte queda (veja gráfico abaixo).
Os contratos para janeiro de 2013 caem 0,15 ponto percentual, enquanto os papéis para abril deste ano recuam 0,11 ponto
"O mercado estava mais cauteloso em apostar num juros a 9,5%, e agora vai começar a apostar mais fortemente nesse preço", explica Barbutti.
Outro ponto que entrou na discussão sobre a ata é que não consta a afirmação de que serão realizados "ajustes moderados" na taxa de juros. A afirmação constava nos últimos comunicados do BC, como forma de anunciar que está mantido o ritmo de corte nos juros.
"Alguns chamaram atenção para esse ponto, mas acho que ele retirou a expressão porque o recado já está suficientemente claro", diz Leal.
Para o economista, o BC mostrou que não está disposto a deixar recados nas entrelinhas.
DI de um dia (% ao ano)
Fonte: BM&FBovespa
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