Eu não sou o primeiro analista e tampouco serei o último a comparar a taxa de crescimento do Brasil com o comportamento do voo da galinha.
A galinha é incapaz de manter um voo por mais de alguns segundos e, via de regra, o voo é curto.
Melhor paralelo com a economia brasileira, impossível. Historicamente, sabemos que crescimentos robustos são cíclicos e têm vida curta.
Essa imagem sempre vem à cabeça dos economistas e estudiosos do tema, quando nosso país ostenta indicadores expressivos de crescimento, porém sem a devida sustentação para que o voo permaneça por um longo período em uma altitude de cruzeiro.
Pena que o governo não atente para tal fato, que sempre aborta uma trajetória firme de expansão.
A falta de sustentação do voo decorre da falta de investimento prévio. Atualmente, a taxa média de investimento brasileiro está na casa de 19% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para que o país consiga crescer com algum grau de sustentabilidade, seria necessária taxa de crescimento em torno de 25% do PIB. Isso apenas para começar.
Hoje, muitos se regozijam (particularmente alguns setores do governo e, particularmente, o partido que apoia a candidata da situação) com o provável crescimento acima de 7% que o Brasil terá neste ano.
Acontece que esse patamar será pontual e, provavelmente, será sucedido por algum freio de arrumação que o governo terá de impor para não deixar a inflação voltar. Quanto antes este freio vier, melhor.
Por outro lado, 2010 é ano de eleição, e o presidente Luís Inácio Lula da Silva, inequivocamente o maior cabo eleitoral da candidata Dilma Rousseff, já deixou claro com palavras e atitudes que sua prioridade é eleger seu sucessor. Isso é, um ajuste mais forte, só depois da eleição.
O próprio ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, chamou de gandaia as pretensões de aumento salarial de várias categorias.
Recentemente, o presidente da República sancionou projeto que eleva acima da inflação os vencimentos dos aposentados que já recebem acima de um salário mínimo.
Essa atitude contribui ainda mais com o desequilíbrio das contas públicas, com o aumento da inflação e a manutenção de um artificial aumento de PIB, movido principalmente pelo consumo das famílias. Esse modelo, assim como o voo da galinha, não tem vida longa. Ao contrário.
Mas cedo ou mais tarde, o choque de realidade virá e os governantes terão de tomar medidas amargas para colocar a economia nos eixos e controlar a inflação.
Leia-se, aumento da taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Enquanto esse momento não chega, não nos deixemos contagiar pelo provável aumento de 7% do PIB para 2010.
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Rafael Paschoarelli é professor de Finanças do Departamento de Administração da Universidade de São Paulo
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Rafael, você pode aproveitar e explicar a discrepância entre essas estimativas de crescimento do PIB de 2010 (em torno de 7 ou 7,5%) e o crescimento nos últimos 12 meses?
O último índice que conheço pra 12 meses é o do primeiro trimestre, de 2,4%. Me parece que o índice referente aos últimos 12 meses é mais confiável, mesmo que a imprensa não o venha atualizando mais. Levando-se em conta que a previsão FOCUS estacionou nesta semana, iniciaremos um ciclo de redução dessas estimativas de modo a virem a aderirem mais consistentemente ao índice "anunciado" pelos 12 meses?
Todo problema do Brasil, reside no baixo indice de poupanca perto de 15% do pib, ou seja precisamos estoura a conta corrente pra fechar a conta.
Lula e Fernando Henrique estão concorrendo para ver quem deixara o maior descontrole na conta corrente e fiscal.
José Carlos,
O aumento PIB esperado para 2010 de 7% considera evolução nos quatro trimestres de 2010 em comparação com 4 trimestres de 2009. Por outro lado, os últimos 12 meses considera 2 trimestres de 2009 e os 2 trimestres de 2010, fornecendo valor mais baixo. Como a economia está "bombando" em 2010 é razoável que se verifique o efeito que você mencionou.
Não sou nenhum especialista em economia, mas acaba de aparecer no jornal da globo, que faltam pneus para caminhões já vendidos, poderem sair das lojas! Isso é uma pena mesmo! Mas o governo tem prioridades muito mais importantes, como um trem bala de 30 bilhões! Que piada!