"Não vejo nenhuma incoerência em se discutir aliança (com o PT), caso a candidatura própria não prospere"
Comunidade
Em entrevista ao Brasil Econômico, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, reclama mudança nos índices que corrigem a dívida paulistana: “Precisamos investir mais”.
Aquele Gilberto Kassab impulsivo parece ter ficado no passado. O prefeito de São Paulo recebeu o Brasil Econômico, na semana passada, em seu gabinete no Viaduto do Chá, no centro da capital paulista.
Com um ar tranquilo, falando pausadamente, nem parecia o mesmo Kassab que no início de mandato "bateu boca" com um cidadão que reclamava do atendimento em um centro de saúde municipal em Pirituba, na zona norte, justamente no momento em que ele inaugurava melhorias na unidade.
Durante a entrevista, o prefeito fez um balanço positivo dos seus seis anos no comando da gestão da maior cidade do Brasil, evitou críticas a seus adversários políticos e manifestou apenas uma reclamação: "Hoje a União lucra com o pagamento da dívida do município de São Paulo. E quando foi feita a renegociação, o espírito não era lucrar, era resolver o problema, condensando todas a dívidas num pacote só".
A dívida da cidade foi renegociada em 1997, durante a gestão de Celso Pitta na prefeitura e de Fernando Henrique Cardoso no governo federal.
Na época, a União assumiu a dívida da prefeitura e a pagou diretamente às instituições financeiras credoras, por meio de títulos públicos federais. O saldo foi refinanciado, em 360 prestações mensais (30 anos), corrigidas pelo índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getúlio Vargas, com juros de 9% ao ano, capitalizadas mensalmente.
Atualmente, a capital paulista deve R$ 48 bilhões aos cofres federais. E a principal reclamação de Kassab é em relação à taxa de juros, que na avaliação dele é "inadequada".
No ano passado, somente o pagamento de juros sobre a dívida com União somou R$ 2,35 bilhões. A questão é que, mesmo com as parcelas em dia, a dívida só aumenta, já que a prefeitura pode comprometer até 13% da sua receita líquida com o pagamento.
Sobre o processo eleitoral de 2012, ele, que chegou à prefeitura por meio de coligação com o PSDB, não descarta uma aliança do seu partido, o PSD, com o PT em São Paulo, podendo até abrir mão de candidatura própria. Kassab assumiu o cargo em 2006, no lugar de José Serra - que renunciou para disputar o governo do estado - e, reeleito, continuou em 2009.
Na avaliação dele, não há incoerência em uma aliança entre PT e PSD. "Aliança se discute com quem está próximo. O PSD e o PT têm proximidade hoje."
Em relação ao governo da presidente Dilma Rousseff, não poupou elogios à governante e disse que ela demonstrou liderança administrativa e política, agindo na hora certa sem maiores desgastes diante das denúncias que envolveram ministérios.
O prefeito falou também de suas ambições pessoais e dos próximos passos para a consolidação do PSD, sigla criada por ele no ano passado, que nasceu com 52 deputados federais, tendo a terceira maior bancada na Câmara dos Deputados.
Ele disse que pretende continuar na vida pública, mesmo ao fim da sua gestão, mas descarta inicialmente hipótese de participação no governo federal. "Até 2012 somos um partido independente", afirmou.
Como o sr. avalia esses seis anos à frente da prefeitura da maior cidade do Brasil?
Foi uma oportunidade que poucos tiveram na história da cidade. Nenhum prefeito ocupou por tanto tempo o cargo. Ao final do mandato, teremos ficado sete anos na Prefeitura de São Paulo, sendo um como vice. Até porque eu fui o único prefeito reeleito na história da cidade.
Isso nos deu, evidentemente, condições de estabelecer programas de curto e médio prazo, e deixar um legado de longo prazo, que inclui projetos importantes como o Nova Luz e as operações urbanas que estão sendo desenhadas.
Em relação à nossa gestão, vamos deixar a cidade com todas as escolas em dois turnos. No caso do funcionalismo, em especial na educação, há uma situação de valorização comparativamente bem melhor. Na saúde, vamos deixar uma série de novos equipamentos, e os que existiam reformados, além de parcerias, de convênios, de programas, como mãe paulistana.
A Lei Cidade Limpa, que baniu os outdoors, é uma das marcas de sua gestão. Qual o balanço que o sr. faz depois de cinco anos desse projeto?
A cidade tem algumas marcas e a Lei Cidade Limpa é uma delas. Ela mostrou para todos nós que quando o poder público quer e a sociedade civil também quer, qualquer desafio, por maior que seja, é possível de ser vencido. São Paulo era uma das cidades mais poluídas visualmente do mundo. Hoje é a cidade com menos poluição visual do mundo, porque todos nós quisemos.
E como está o projeto de revitalização do centro da cidade?
Esse é um legado que vamos deixar para a cidade. É o projeto Nova Luz. São 52 quadras no centro de São Paulo que serão beneficiadas por um projeto que vai requalificar a área, vai recuperá-la, preservando-se, evidentemente, alguns espaços.
Trata-se de uma área muito bem dotada de equipamentos públicos, de infraestrutura. O processo de licenciamento ambiental já está em processo e o próximo passo será partir para a licitação de quem vai executar a obra.
Há um prazo para a conclusão desse projeto?
Eu acredito que, se formos felizes, até o final do ano teremos já definido, mediante licitação, qual o consórcio que será responsável pela obra, que deverá ser executada só a partir do próximo governo.
O sr. acha que o Nova Luz terá andamento na próxima gestão?
Acredito que sim. É normal qualquer gestão que se inicie, reavalie, veja o que quer aperfeiçoar, mas neste caso trata-se de um projeto muito sonhado por toda a cidade.
Como o sr. vê os questionamentos do Ministério Público em relação ao projeto?
Não é o Ministério Público, é um ou outro promotor. Mas isso é legitimo, é o papel do Ministério Público questionar. Mas estamos muito tranquilos em relação à importância do projeto. Qualquer dúvida vai ser dirimida, até porque é um projeto de altíssimo nível. É a recuperação definitiva do centro da cidade.
Quanto às últimas operações na Cracolândia, região inclusive que será abrangida pelo projeto de revitalização do centro, houve alguma conversa entre os governos estadual e municipal?
Primeiro, é importante registrar que desde o início do nosso governo foram feitas diversas ações na região. Vários equipamentos de saúde e de assistência social foram inaugurados, alguns foram recuperados, e as ações sempre existiram.
Em relação a esse último episódio, na verdade nada mais foi do que uma intensificação das ações de segurança cuja responsabilidade é do governo do estado.
Mas não houve uma conversa com a prefeitura antes?
A relação com os governos do estado e federal é rotineira. Já discutimos com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a questão do crack, a questão da Nova Luz, dos dependentes, e inúmeras vezes também com o governo estadual, primeiramente com o governador José Serra e depois com o governador Geraldo Alckmin.
Nos últimos meses foi retomado um grupo de trabalho bastante amplo que tem por objetivo a melhora na o trabalho em conjunto.
O sr. é a favor das operações da polícia na região?
Na verdade eu diria que é uma operação que precisa ser rotineira, até porque a polícia tem que estar presente em uma área sujeita ao tráfico, portanto sujeita ao crime. Agora outra coisa são excessos. Se houve, é preciso ser apurado e, evidentemente, os responsáveis serem punidos.
Qual a repercussão política dessa ação, principalmente em ano eleitoral?
Evidente que as pessoas querem uma solução para essa questão, que tem forte impacto na cidade. Por outro lado, todos querem também que tudo seja feito obedecendo os critérios dos direitos humanos. Por isso, sempre que houver uma operação mais dura, é preciso observar se foram cumpridas todas as regras, para que não aconteçam excessos.
Quanto à criação o PSD, qual a razão do lançamento de um novo partido?
O PSD surgiu com um grupo de pessoas que não estava se sentido confortável no DEM, entendendo que numa democracia a oposição é saudável, mas ser oposição não significa estar contra tudo - e essa estava sendo a postura do DEM.
Nós, após avaliarmos muito qual seria o caminho para enfrentar esse desconforto, acabamos chegando à conclusão de que o melhor seria fundar um novo partido. E formamos o PSD. No primeiro momento, estando à frente, aqui em São Paulo, eu e o Guilherme Afif (atual vice-governador do Estado de São Paulo).
Ou seja, os insatisfeitos se reuniram no PSD?
Eu não diria isso. São pessoas que têm afinidade com essa ideia de fazer um partido de centro e que vieram de todos os partidos.
As pessoas têm afinidade, elas sabem ou sabiam que estavam vindo para um partido de centro, com determinadas características, voltado para a defesa de liberdades individuais, liberdade de imprensa.
As pessoas sabiam para onde estavam indo. Por fim, o partido acabou se consolidando um grupo muito expressivo, que mantém o mesmo perfil ideológico do DEM, e tem um perfil nitidamente de centro, pronto para participar das eleições.
- Confira a entrevista completa na edição impressa do Brasil Econômico desta segunda-feira (30/1).
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