Mesmo com aumento da segurança global, violência não diminui
BÁRBARA LADEIA
Reação americana aos ataques favoreceu a escalada da violência no mundo
O que se pode assistir desde os atentados contra as torres gêmeas no Onze de Setembro é um avanço da violência no Mundo. Não só em atentados terroristas, mas na gestão das polícias nacionais e internacionais.
A reação americana ao atentado foi quase imediata. O país, então governado por George W. Bush, adotou uma série de medidas agressivas de segurança e partiu para uma empreitada no Oriente Médio, invadindo Iraque e Afeganistão.
O movimento, conhecido mundialmente por Guerra ao Terror – termo cunhado pelo chefe de Estado da época - teria sido o principal promotor do aumento da segurança internacional.
"O americano está desesperado por paz e segurança", sinaliza Antônio Gonçalves, advogado especialista em criminologia internacional, que vê neste desespero a principal fonte para a escalada da violência. Nesse sentido, ainda que soe contraditório, o avanço da segurança promoveu uma escalada da violência em âmbito internacional.
A estimativa de mortes na investida contra os dois países já chega a casa do milhão, desconsiderando a violência nos interrogatórios tanto nos Estados Unidos como fora dele.
O ícone deste movimento foi o chamado Ato Patriota, no qual, em nome da segurança interna, o país poderia interceptar as comunicações pessoais, acessar documentos sigilosos de empresas, entre outros. "O Ato Patriota foi quase uma aproximação do estado totalitário", sinaliza Gonçalves.
Enfraquecimento
Nesse período, a Organização das Nações Unidas (ONU) explicita seu enfraquecimento diante do mundo. Solenemente ignorada pelo governo americano, tentou impedir o avanço dos Estados Unidos sobre o Iraque e o Afeganistão.
A desobediência, no entanto, pouco impacta nas atividades americanas. A organização não tem meios para punir aqueles que rompem suas sugestões. "A ONU não foi criada com caráter repressor", explica Gonçalves.
Para ele, as próprias guerras fizeram o que a organização não teve ferramentas para fazer. O alto endividamento dos Estados Unidos diante dos US$ 4,4 trilhões gastos nas invasões é apenas uma das consequências. "Os americanos pagaram um preço alto pela sua soberba. Depois da morte do Saddam Hussein, eles perceberam que a única pessoa capaz de controlar a região era ele."
O peso emocional da perda dos 6.200 soldados saudáveis em um combate sem resultados – a busca era por armas de destruição em massa, nunca encontradas – também recaíram sobre os ombros do republicano. Esse insucesso abriu espaço para o avanço e posterior eleição do democrata Barack Obama.
Direitos Humanos
Gonçalves lembra também do passivo moral em manter a prisão de Guantánamo aberta e não desconsidera esse elemento na escalada da violência. "Para a captura de Osama Bin Laden e os outros líderes da Al Qaeda há que se imaginar o que pode estar sendo feito nos interrogatórios em Guantánamo", lembra o especialista.
Rose Nogueira, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, lembra que a suposta utilização da tortura nos interrogatórios é um fator agregador ao aumento da violência global. "Não há dúvidas que muito se perdeu do ponto de vista dos direitos humanos em todo o mundo."
A maior preocupação, atualmente, recai sobre a ausência de um órgão capaz de coibir essas ações. Neste contexto a ONU perdeu boa parte do seu poder. "Eu sou de um tempo em que a ONU conseguia evitar os conflitos", lamenta Rose.
O advogado Antônio Gonçalves, no entanto, ressalta a maior velocidade nos julgamentos do Tribunal Penal Internacional desde os atentados, o que traz uma maior eficiência na gestão de conflitos globais.
Prova disso é a velocidade do julgamento de Hosni Mubarak, ex-ditador no Egito deposto pela primavera árabe. "Não podemos esquecer que o Tribunal é formado por autoridades de diversos países, o que aponta um maior interesse mundial na solução desse tipo de conflito."
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